domingo, 15 de setembro de 2013

Amantes e Shakespeare


Interior da livraria Shakespeare and Company em Paris

Sentei-me ao lado dele e sorri. Pensando em como adoro vê-lo concentrado dessa forma escorei-me na mesa enquanto ele calculava algo incessantemente. Ele parecia não notar-me ali, então decidi fazer-me presente. Sentei ao lado de seus papéis, com o vestido ligeiramente curto onde cruzei as pernas. 

- Posso saber o que a senhorita pretende sentando aí? - Ele nem sequer desvia o olhar da folha a sua frente.

- Apenas tentando recuperar a minha criatividade. - ele apenas consente e voltar a rabiscar números no papel. Me chateio e inicio uma nova sentença com a voz rancorosa. - Ou talvez eu esteja tentando chamar a sua atenção, já que você mal falou comigo desde o nosso aniversário pois passou a maior parte do tempo dentro desse escritório.

Quando ele finalmente me olha com seus belíssimos olhos, penso que irá dizer que sentiu falta do nosso tempo juntos ou que adorou o meu novo vestido de seda marfim. Mas não.

- Não é um escritório, é um laboratório. - Eu reviro os olhos. - Você sabe disso.


- Me desculpe. Não quis ofender. - Respiro fundo, coloco-me de pé e caminho em direção a porta. A bato com força. Ando para o meu quarto, pego uma mala e e começo a enchê-la. Algumas peças de roupa leves e alguns livros, somente o necessário para passar um fim de semana fora. Visto um casaco pesado e meus óculos, pois minha cabeça já começa a doer. 

Ao descer as escadas silenciosamente, eu observo o nossa casa cujo o espaço era reduzido, não pelo seu tamanho em si pois este era mais do que suficiente, mas pela quantidade de objetos que abrigamos dentro. Livros, objetos históricos, livros, revistas, livros, quadros, livros, filmes, livros, discos, livros, souvernirs, livros, um piano e mais livros. Nossa casa é praticamente uma Shakespeare&Co a qual nós decoramos com o tempo. Desde que começamos a morar juntos fomos trazendo nossos pertences dos lares antigos, comprávamos e ainda compramos muito, especialmente eu. Olhei o cenário que me cercava e deixei cair uma lágrima. Quantos momentos felizes já não passamos aqui, recebendo amigos para um chá inglês ou para um jantar vegetariano, lendo o jornal enquanto tomávamos o café da manhã ou simplesmente assistindo um filme enquanto aproveitávamos a companhia um do outro. É claro que em nenhum desses momentos nenhum de nós ficava calado por muito tempo. Surgia sempre uma crítica, uma discussão positiva. Nos momentos tristes onde a dor reinava durante vinte e quatro horas de nossos dias, eu me deitava em seu colo enquanto sentia seus dedos em meu cabelo. O que aconteceu? O que fizemos para que todos esses momentos tenham se perdido e ele tenha me condenado a este terrível castigo que é a ausência da sua presença? Pego de cima do piano  um porta retrato de prata, comprado em um antiquário, que contém a foto do dia do nosso casamento. Ao contrário das fotografias tradicionais, com um vestido branco após uma cerimônia grandiosa, o que vejo é um casal, rindo em frente a um bonde em Istambul, dias antes de embarcarem no Expresso do Oriente.

- Foi um dia maravilhoso, você estava deslumbrante. - Sinto uma mão sobre o meu ombro. Ele me olha e olha a minha mala. - Pretendia ir viajar sem mim?

- Achei que você não se importaria. - Dou de ombros. - Você não parece ter se importado muito com o que eu faço ultimamente. 

- Você sabe que não é isso.  - Ele faz uma longa pausa, e a cada segundo que passa eu vou ficando mais nervosa. Ele parece confuso como alguém que tenta encontrar palavras certas para algo que fez de errado. Ele abaixa a cabeça e quando me olha novamente eu já imagino o que seja. Após longos anos esse problema ainda me persegue. Ela sempre esteve entre nós e ao que tudo indica, sempre estará. - Me perdoe. 

Eu queria gritar, chorar e dizer palavras horríveis a ele. Mas não consegui. Eu queria abraçá-lo dizendo que estava tudo bem, que nada importava, mas não fui capaz. Ao invés disso, peguei a minha mala que estava no chão, olhei para ele como quem diz 'não me siga' e cruzei a porta da entrada, aquela que barrava o mundo da nossa casa, a realidade do meu sonho, agora pesadelo. Retornei somente uma semana depois, com os papéis do divórcio nas mãos. Ele implorou para que eu não fizesse isso, mas eu não pude o atender. Hoje quando o acaso nos reúne, e eu tenho o prazer de apreciar seu perfume mais uma vez, não posso deixar de lamentar o dia em que eu me calei.

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