quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Quando a Arte Imita a Vida



Por mais que eu sempre ache que sei o que fazer do meu futuro, no final eu acabo não sabendo de nada e ficando naquela indecisão interna e eterna. Ontem, eu estava certa que faria Artes Visuais além do Direito, hoje, sinceramente, eu não sei mais. Porém me lembrei desse texto que escrevi há um tempo e decidi postá-lo, pois ele demonstra uma parte da minha paixão pela arte e como eu gostaria de incluí-la mais na minha vida.


Abro meus olhos e vejo os móveis do loft arrastados para os cantos e todo o chão coberto de jornal, estando esses manchados de tintas de diversas cores. Diversos quadros e pincéis espalhados em harmonia que representam o mais puro caos. A vitrola toca ao fundo e a rolha da champagne continua no mesmo local em que ela parou quando foi estourada. O que aconteceu noite passada? Há um pequeno detalhe que altera todo o cenário e me dá uma pista. Um anjo de cabelos loiros repousa ao meu lado, respirando suavemente, com uma expressão quase infantil em sua face. Sim. Ele. Ele que faz todas as experiências parecerem inéditas, como se elas fossem realizadas pela primeira vez. Sua tranquilidade me encanta, e não posso resistir fotografá-lo.

Caminho silenciosamente até a cozinha onde deixei minha câmera analógica ontem e volto para seu lado. É incrível como ele consegue despertar a arte que existe em minha vida. Ao lado dele me sinto inspirada constantemente e longe, sinto-me obrigada a chegar a este nível. Inicio a sessão, que não vem a durar muito. Após meu quinto disparo ele acorda, um pouco atordoado por encontrar-me em cima dele,  com a máquina em minhas mãos, sorrindo involuntariamente.

- Liénor... O que você está fazendo? - Ele revira-se na cama, deixando cair o lençol de seda branca que o cobria, deixando-me com um perfeito vislumbre de seu corpo bronzeado. Ele pisca lentamente, como se a claridade o incomodasse. - Que horas são?

- Estou eternizando este momento, Gustave... - Seu nome tinha sido dado em homenagem ao criador de uma das mais belas construções já existentes, que eu planejava visitar com o homônimo de seu autor brevemente: a Torre Eiffel. - De você, acordando com a luz da manhã do dia oito de janeiro ás dez horas da manhã...

Não sei se foi o tempo em que passamos separados, com uma distância que não podia ser medida somente em quilômetros, mas em frivolidades também, ou se foi o amadurecimento de nossa relação que me fez perceber o quanto era maravilhoso estar ao lado de determinadas pessoas, e que devemos aproveitar cada segundo que temos ao lado delas, antes que infelizmente as percamos.

- Você acordou inspirada hoje... - ele abre os olhos e sorri mordazmente - O que aconteceu?
As lembranças do dia anterior correm em minha mente. Ele chegando ao apartamento com uma garrafa de champagne e rosas amarelas. Eu cozinhando enquanto ele tentava me distrair das mais diversas formas. Ele se oferecendo para terminar o jantar enquanto eu me apronto e quando eu chego, há somente o brilho da chama das velas sobre a mesa posta. O jantar. O que veio depois. A melhor parte.

- Não finja que não sabe querido... - sorrio para ele e me deito ao seu lado, apoiando-me em seu peito. - Acho que você recorda muito bem...

Ele parece ignorar o meu comentário, dando apenas um risinho em confirmação. Ele olha ao redor, como se analisasse o estrago depois de uma grande tormenta, não o que tivesse se passado ali ontem fosse muito diferente.

- Que anarquia! Nós fizemos uma pequena destruição aqui, não é? - ele me encara parecendo agora querer rir ainda mais. Eu levanto a sobrancelha como se perguntasse algo. Ele apenas aponta para o meu rosto. Ah. Tinta. Que ele jogou em mim. E é claro que eu revidei. Reviro os olhos.- Você mereceu!

- Eu mereci? O que foi que eu fiz? Pelo o que eu me lembre você me provocou! E teve o que mereceu depois. - olho o corpo dele, rindo. - Pelo menos você pôde tirar a camisa manchada.

-  E você fez questão de ajudar com isso não é? - mas é claro que sim. Assim como ajudei-o a tirar o cinto, a calça, a... - Eu sei que sim. Não precisa responder, Liénor.

Depois de algumas taças de vinho, um Dom Perignon, uísque e embriagados pela presença um do outro, eis que surge a minha ideia brilhante. Busco um quadro e o coloco-o em um cavalete. Gustave me pergunta o que eu faria com aquilo e eu utilizo a minha resposta que depois que o conheci considero padrão: 'Estou inspirada! ' Abro os potes de tinta e coloco as mãos dentro. Começo a espalhar pela tela em branco na minha frente. Não sei como, mas acabo espirrando nele. E é este pequeno fato que desencadeia toda a situação. E uma obra de arte que modestamente eu digo que ficou estupenda, quase digna do Centro Georges Pompidou. Ele levanta da cama e vai até a nossa abstração.

- Ficou realmente belo. - eu caminho até ele, que me abraça e eu deito a face sobre o ombro dele. Observamos. Há basicamente tinta vermelha e branca espalhada pela tela, em alguns locais se tornando rosa, mas em meio a esse emaranhado de informação, há a marca de duas pessoas, dois corpos quase que irreconhecíveis, e que se não fosse a marca que ainda resta em nossas peles eu não acreditaria que éramos nós. - Acho que poderíamos colocar na nossa sala.

- Na nossa sala? - eu não sei do que ele está falando. - Eu não estou entendendo, Gustave.

Ele não me responde instantaneamente, mantendo um suspense, quase uma tensão no ar. Eu não consigo identificar a expressão em seus olhos. Ele me olha calmamente, mas suas mãos se movem incessantemente.
- Foi o que você entendeu. Liénor. Nós passamos por tantos momentos juntos, muito de dor e tristeza, mas a maioria de plena felicidade, como o de ontem a noite... Quando nós nos separamos, eu... Eu senti muito sua falta. Muito mesmo. E eu não quero te perder novamente. E se for para isso acontecer, que pelo menos tenha uma burocracia maior que te faça repensar. - eu apenas o olho, com uma expressão no mínimo assustada e ele se ajoelha, confirmando a minha hipótese. - Quer casar comigo?

Eu não posso descrever o meu estado como êxtase. Fico sem ar, o que me impede de dizer a única coisa que eu penso em dizer: 'Sim! Sim! Sim!' Em minha cabeça repasso tudo o que passamos juntos e depois os que viríamos a passar e acabo dizendo algo completamente diferente do que pretendia:

- Então nós temos que criar um para o nosso quarto também... - deixo cair uma lágrima. Ele me pega no colo e beija aonde estava manchado de tinta o meu rosto e depois meus lábios. - Eu te amo, Gustave.


- Não tanto quanto eu te amo, Liénor...

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