terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Arte e Religião

Obra exposta no MON.

Muito antes do nascimento de Jesus Cristo a arte já era utilizada como forma de expressão, principalmente religiosa. Para os antigos sumérios, 'a religião era a força motriz da sociedade e a arte e a arquitetura serviam como expressões práticas das crenças e dos rituais religiosos'¹. Os egípcios representavam suas divindades em afrescos, esculturas e pinturas e com esses registros pode-se entender muito da rica cultura desse povo cuja grande parte reflete-se justamente em seus ritos e crenças. Os gregos retrataram muito bem a forma feminina, especialmente aquelas consideradas sagradas, como de suas deusas. Uma das obras gregas mais famosas atualmente, a Vênus de Milo (nome latino para Afrodite).

A arte teve sua função na popularização do Cristianismo. Por toda Europa, diversos artistas criaram justamente com intenção de ajudar a transmitir os ensinamentos do messias, assim como a história da sua vida.

Durante o período Gótico em comunhão com a religião, a arquitetura formou o eixo de maior relevância
desse movimento e cunhou profundamente todo o seu desenvolvimento estético. As catedrais de Notre-Dame, Chartres e Amiens na França e a Catedral de Colônia na Alemanha são os mais belos exemplos. Foi nessa época também em que Dante Alighieri começou a escrever sua obra 'A Divina Comédia', séculos depois ilustrada por Salvador Dalí com seu surrealismo em uma edição especial. Outras construções foram mais tarde realizadas  com o revivalismo do estilo gótico, como a Abadia de Westminster em Londres e a Catedral da Sé em São Paulo. É também importante constatar que não eram somente obras com temas religiosos que eram criadas, mas essas acabaram ganhando maior destaque, não sendo essa uma regra sem exceções, como  no Gótico Flamengo, em que a a obra 'O Casal Arnolfini' de Jan Van Eyck é uma das mais célebres. Porém essa relação de predominância acaba diminuindo consideravelmente após a Revolução Francesa, quase desaparecendo hoje com a Arte Moderna.

Já a Alta Renascença foi marcada por grandes nomes como Rafael, Leonardo Da Vinci e Michelangelo. Da Vinci com seu desenho 'Proporções da Imagem do Homem', mais conhecido como 'O Homem Vitruviano', deixou exposta a teoria Humanística, que colocava o homem e suas realizações no centro de tudo. Michelangelo deixou isso claro mesmo em suas obras voltadas para o meio religioso, como o teto da Capela Sistina, pintado a pedido do Papa Júlio II. O nu é bem presente no afresco, mostrando o homem como ele realmente é, sem adornos muitas vezes desnecessários. Infelizmente, afirma-se que a pintura do mestre foi censurada pela Igreja, que chocada com a singela composição, mandou um outro artista cobrir muitos dos corpos despidos.

O Maneirismo (do italiano maniera, estilo, elegância) foi uma arte de cores fortes e corpos alongados, denotada por El Grego. Sofreu mais tarde grandes críticas por ter sido basicamente encomendada pela Igreja. A grande presença de obras com a palavra 'virgem' no título surpreende ( como A Virgem do Pescoço Longo, de Parmigianino) e exemplifica o destaque do conceito de virgindade na sociedade, incutido justamente pela religião. A sexualidade do romano passou das famosas bacanais para a 'moralidade' com o advento do Cristianismo e o comportamento humano nesse aspecto seguiu 'pecaminoso' até a Revolução Sexual nos Anos 60. Hoje, ainda pode-se encontrar resquícios desse pensamento, muitas vezes patriarcal, machista e retrógrado,  em parte do corpo social, ratificado pelas instituições religiosas e argumentado por suas escrituras sagradas. Sendo que essa conjuntura foi criticada pelo barroquismo, movimento seguinte. E é curioso o paradoxo criado pelo artista barroco Lorenzo Bernini em sua escultura 'O Êxtase de Santa Teresa', a qual mostra aquela figura casta figura feminina 'trespassada por uma seta de amor divino de um anjo'³ e encontra-se hoje na Capela Cornaro, Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma.

'O século XVII foi uma época de enormes transformações em toda a Europa. Politicamente, o período testemunhou a ascensão de líderes e governantes autocráticos dispostos a se vangloriar de sua imensa riqueza: cálices com jóias incrustadas, tapeçarias com fios de ouro e espirais arquitetônicos são característicos dessa extravagância. Ao mesmo tempo, as obras de Newton e Galileu produziram inovações históricas no mundo da ciência, enquanto a filosofia de Descartes transformou a ideia do lugar que o homem ocupava no mundo. A maior revolução, contudo, aconteceu na religião, com a liderança dos papas em Roma sendo questionada pela Reforma Protestante. O cristianismo ocidental foi divido e a Igreja Católica tentou recuperar sua autoridade combatendo a fé protestante, reformulando-se e expressando novos conceitos por meio da arte.'4 E assim surge o barroco, período em que na música vai até a morte de  Johann Sebastian Bach, compositor de Jesus, Alegria dos Homens e Ave Maria, em 1750. Em reposta ao movimento, surge o Rococó, transformando imagens sagradas em pecaminosas, como a do anjo em cupido. Aliás, esse período é conhecido como a versão profana do Barroco, pois cultua o amor romântico, e em geral ilícito. Como era associada ao Antigo Regime, aos seus governantes (e suas amantes), tem fim no inicio da Revolução Francesa e dá lugar ao Neoclassicismo.

Com a chegada do Século das Luzes, a influência da Igreja na Arte diminui drasticamente, porém ainda estava em vigor o Index Librorum Prohibitorum, ou Índices do Livros Proibidos. A lista de publicações literárias só foi abolida em 1966 pelo Papa Paulo VI. Foram diversos livros censurados, de autores como Dante, Descartes, Montesquieu, Simone de Beauvoir, Sartre, Dumas, entre outros. E mesmo nos dias atuais, com o fim da lista, a Igreja esporadicamente emite anúncios não recomendando a leitura de certo livros como O Código da Vinci em 2003, mostrando que ainda sim, interfere da vida cultural de seus fiéis e não-fiéis.

¹ 'Tudo Sobre Arte' de Stephen Farthing, p. 20.
² 'Tudo Sobre Arte' de Stephen Farthing, p. 72.
³ O Êxtase de Santa Teresa, Wikipedia.
4 'Tudo Sobre Arte' de Stephen Farthing, p. 212.

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