sexta-feira, 7 de março de 2014

Sobre o finado 'rolezinho'

A nova classe média é considerada motivo de orgulho para grande parte da população brasileira afinal, haja vista o sistema econômico vigente, o aumento do poder de consumo deve ser amplamente celebrado.Surgem então diversas estratégias, tanto de iniciativa pública quanto privada, para atrair os possíveis novos clientes: a rede de cinemas Cinemark passa a exibir em maior quantidade filmes dublados para agradar ao novo público. O canal de TV por assinatura Multishow exibe Naldo, Paula Fernandes  e Anitta com mais frequência que 'Vanessa da Mata cantando Tom Jobim' por exemplo, pois os primeiros possuem indiscutivelmente mais audiência. E alguns críticos afirmam que a revista Bravo!, que quando lançada apresentava conteúdos exacerbadamente eruditos, hoje vem rendendo-se aos apelos populares, assim como os cadernos culturais de conceituados periódicos nacionais, mostrando portanto,  que o crescimento econômico não condiz com o crescimento do capital cultural e essas medidas de nivelamento tem como consequência o comportamento de muitos jovens da atualidade.

Beber, curtir, ficar e zoar, os quatro verbos surpreendentemente proferidos de forma correta em meio a um coletivo de erros gramaticais definem, segundo uma jovem em entrevista a UOL, o que seria um 'rolê' perfeito. Organizados com ajuda das redes sociais, os encontros  causaram polêmica e formaram duas correntes de pensamento quando o 'rolezinho' entrava em pauta. Havia os que defendiam dizendo ser um movimento de afirmação social das classes periféricas e aqueles que eram contrários, pois não queriam seu espaço invadido por gritos de funk ostentação, o que comprova a pesquisa realizada pelo IBOBE, a qual relaciona gêneros musicais como rock e MPB às classes A e B, o sertanejo e o pagode à classe C, e o funk e a música gospel às classes C, D, e E. Consequentemente, a diferenciação entre a cultura popular e a erudita tende a ser considerada elitista devido o difícil acesso da massa a esses'artigos de luxo' e não aparenta demonstrar interesse em adquiri-los, visto que somente 20% deste estrato social busca aprender um segundo idioma, hoje essencial no mercado de trabalho. Entretanto, esses visam à posse de roupas e acessórios de grifes renomadas, em equivalência ao desejo de seus pais em obter um carro novo e uma televisão de tela plana, ao invés de realizar investimentos por ora mais subjetivos.

Porém como exigir de um povo interesse pelas artes e pelas ciências se não lhes é dada a oportunidade? 'Como vou crescer, se nada cresce por aqui?', já cantava Renato Russo em uma época em que essa já era a realidade brasileira.  As salas de aula, as quais deveriam ser um templo do conhecimento, se analisadas de forma romantizada, muitas vezes não passam de penitência. Lá, onde poderia-se encantar as crianças mostrando o quão belo o conhecimento é, só torna-o  maçante e não aplicável a 'vida real'. Se faz necessário a ampliação do horizonte dos indivíduos, não de forma utópica ou surreal: uma mudança na didática e uma melhor fundamentação dos professores já traíram consideráveis transformações no universo escolar. Todavia, um item deveria ser levado em consideração por quem pretende lecionar: a paixão por aquilo que faz. Só assim, inspirando o aluno ao desconhecido Mondrian, Tchaikovsky, Dante, Balzac, Dalí, Molière, Da Vinci, Machado, poderá ser dito para ele dar um 'rolezinho' em uma biblioteca ou em um tão distante museu.

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