quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Algumas considerações pessoais sobre o Charlie Hebdo


Oui, je suis Charlie!

Eu não consigo acreditar em alguns comentários absurdos que eu leio na internet. Alguns comentários que afirmam que a morte dos cartunistas do Charlie Hebdo foi justificável, ou pior, merecido. Li diversos textos que afirmavam ser contra a hashtag mais utilizada da história. Eu não sou Charlie. Je ne suis pas Charlie. Tenho que deixar claro que eu posso ser tendenciosa quando se trata da minha opinião sobre a França. Como muitos já sabem, eu tenho uma forte ligação com o país, até porque eu aprendo francês já há quase três anos. Quando criança, eu 'brincava' de falar essa língua. E hoje eu irei justificar o porquê de eu ser sim Charlie.
Quando acordei, na manhã daquela quarta-feira, a primeira coisa que fiz foi pegar o meu celular. Lá havia seis notificações. Duas da BBC, duas da CNN e duas do Le Monde. Todas falando do atentado. E eu não imaginava a proporção que ele iria tomar. Passei as horas que se seguiram acompanhando cada detalhe, cada nova informação. Anotei no meu caderninho de 'fatos históricos os quais eu presenciei'. Tirei uma foto para retratar o meu sentimento em relação ao momento. E li cada vez mais textos criticando o jornal e a quem se posicionava a favor dele. Se eu conhecia a publicação antes do atentado? Sim, eu conhecia. Já havia lido sobre suas capas polêmicas, mirando especialmente às religiões. Se na época achei algo absurdo? Não, eu não achei. Ofensivo? Sim. Ofensivo aos muçulmanos, quando falava-se de Maomé. Aos católicos, quando o assunto era o Papa. Aos judeus, aos políticos franceses, alemães, belgas, ingleses. Até os fãs de Michael Jackson sofreram. E nenhum deles entrou atirando na redação do jornal. Se eu dissesse que os islâmicos foram quem mataram Charb e seus companheiros, eu estaria sendo preconceituosa de uma forma imperdoável. Eu estaria alegando que todos os que seguem Alá são terroristas. E isso, como espero que todos bem saibam, está muito longe da verdade. O islamismo é uma religião como qualquer outra, que prega aquilo que há de bom no mundo (ou talvez, aquilo que falte de bom do mundo. Depende do seu ponto de vista. O copo está meio cheio ou meio vazio?). Só que a sua vertente extremista, se destaca. Poderíamos qualificar como 'a mais extremistas das extremistas'. Poderíamos qualificar seus atos como 'os mais odiosos dos odiosos'. E se você pensa que eu estou me referindo ao atentado parisiense, está parcialmente certo. Mas me refiro também à morte de jornalistas estrangeiros em países árabes. Ao sequestro que meninas enquanto essas estudavam. À morte de 2000 pessoas na Nigéria. Aos inúmeros atos horrendos que estes comentem supostamente em nome de Deus. Era a eles quem o Charlie Hebdo criticava, talvez de uma forma mais agressiva com a qual estamos acostumados.


Talvez de uma forma insensível àqueles que não poderiam ser colocadas 'dentro do mesmo pacote'. Mas não tiremos os méritos daqueles que enfrentaram e que colocaram a cara a bater (ou o peito às balas, se assim preferir) o que pode vir a ser a semente de um dos maiores conflitos do futuro. E não é exagero.

Achei que eu não sentiria falta da escola. Mas tudo o que eu queria agora era participar de mais uma aula de atualidades do melhor professor de geografia do mundo. Foi ele quem elucidou as principais questões acerca dos grupos extremistas islâmicos. E que disse uma frase que me marcou (junto com o fato que 2015 não seria um bom ano para viagens internacionais): a luta daqueles que seguem a Sharia (nome dado ao Direito Islâmico baseado no Corão) não é contra Israel ou Estados Unidos. É contra o modo de vida ocidental. Nós somos os pecadores, nós somos os infiéis. A tolerância, infelizmente, não é pregada por esse seguimento da religião.

Quando olhar fotos daquela passeata em Paris, não pense somente nas vítimas do 07 de janeiro. Pense em todas as vítimas que já foram e ainda serão feitas. Foi necessário atacar um país elitista, esnobe, xenófobo, explorador ou o que você preferir chamar, para que milhões se comovessem. Mas se comoveram por uma causa que é, e aqui não me refiro à rede midiática, globalizada. E quando a presidente Dilma não compareceu e nem enviou o seu vice, Michel Temer, ou algum ministro como forma de solidariedade em relação a uma situação atípica, como constatou a Folha de São Paulo, ela não fez jus ao significado de política. A arte, a ciência que gerencia, organiza, dirige relações internas ou externas. E nessa situação, essa foi uma arte que a presidente não dominou. O protesto foi muito mais simbólico do que efetivo, representou o sentimento de uma grande parte da população francesa e mundial. Como uma placa dizia no dia, 'eu sou policial. Eu sou cristão, eu sou judeu, eu sou islâmico, eu sou ateu. Eu sou francês, eu sou cidadão do mundo. Eu sou Charlie.' Isso é política. É criada pelo homem e muitas vezes, desumana. É do povo, mas não é. É subjetiva, não é preta e branca. Na verdade, nos últimos dias, ela é vermelha, é azul, é branca. E eu não vejo nada de errado nisso.

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