sábado, 14 de fevereiro de 2015

A França pelos franceses: ataque à liberdade de expressão?




Foto por Theana Korez

Em tempos de ânimos políticos exaltados no Estado do Paraná e em minha casa, já que ambos os meus pais são servidores públicos, retomo um assunto que já não ganha mais tanto destaque na mídia tradicional. Afinal, o caso do Charlie Hebdo gerou tanta polêmica quanto poderia. Alguns alegavam que o acontecimento era uma tragédia anunciada e merecida. Outros afirmavam que o Brasil já possui problemas políticos e sociais suficientes sem que aderisse ao sentimentalismo francês. E um grupo, do qual eu fazia parte, solidarizava com a causa #jesuischarlie. 

Entretanto, uma publicação das Folha de São Paulo nas redes sociais gerou mais um alvoroço cibernético (como é de praxe*): a edição comemorativa da revista seria vendida em loja especializadas nas terras ao sul do Equador. Que pecado! Alguns benevolentes até se ofereceram para unir-se ao Estado Islâmico para acabar com essa 'modinha' aqui. Comentários inconcebíveis a parte, um questionamento me veio à mente. Lemos todos esses pareceres 'brésiliens' em jornais nacionais ou assistimos a reportagens traduzidas e editadas, mas não comumente temos acesso ao pensamento de cidadãos comuns, de 'gente como a gente', quando se trata de grandes acontecimentos mundiais. Comecei então a ponderar sobre como um adolescente tipicamente francês se sentia a respeito dos acontecimentos em seu país natal que rapidamente passaram à categoria de eventos globais. A única maneira de encontrar uma resposta satisfatória era perguntando.

Contatei alguns franceses que conheci em julho de 2013, quando tive a oportunidade de passar três semanas do verão europeu em uma cidadezinha no interior da Inglaterra. Recebi as repostas quase que imediatamente (infinitamente mais rápidas que a produção deste texto) e, para a minha alegria, bem diversificadas. 

Para Louis Morin, habitante de Meudon, no subúrbio de Paris, o acontecido foi 'um real ataque contra o seu país, à humanidade e à liberdade de expressão. Esse trágico episódio afetou severamente dos jovens aos mais velhos, sendo que que eles franceses apreciaram a união do país e do mundo'. Clemént Grohan, também de Meudon, completa a linha de pensamento dizendo que não conhecia a revista antes de tudo, e que quando soube que os terroristas eram franceses, simplesmente não conseguiu entender a reação deles, mesmo frente aos desenhos provocativos do periódico. 

Já Mélanie Gary e Theana Korez, provaram que além de serem amigas, possuem opiniões políticas similares. Ambas compararam os ataques parisienses ao 11 de setembro. E mais do que isso, forneceram relatos bem detalhados sobre o acontecido.

'Eu moro a vinte minutos de Paris, onde o Charlie Hebdo está localizado! Eu estava na escola quando avisados dos eventos que haviam acontecido. Eu já havia ouvido falar desse jornal, mas não o conhecia exatamente. Eu imediatamente pensei no 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Nós sentimos  o que os americanos sentiram naquele dia. Antes de falar com algumas pessoas sobre o ataque, eu pesquisei sobre o periódico Charlie e suas publicações. Depois de minhas pesquisas, falei com algumas pessoas da minha sala de aula e algumas disseram que não eram Charlie porque a revista havia diversas vezes representado o Profeta Maomé, sendo que a religião deles proíbe isso. Eu não sou contra a ideia da proibição dessas representações, mas esse jornal fazia isso com todas as religiões, zombava de todas elas. Era feito propositalmente, pois a provocação era justamente a inteção. "Je suis Charlie" é uma mensagem de apoio cujo significado diz que poderia ter acontecido com qualquer um, não importa em qual parte do mundo. Não é uma mensagem que criminaliza uma religião.'
- M. G., 17 anos 

'Para mim, o que aconteceu em Paris foi algo horrível. Foi como o ataque ao World Trade Center: todos se lembram o que estavam fazendo naquele dia (eu acho). Eu estava na aula de italiano, quando meu vizinho me contou sobre o ataque. Todos ficaram muito chocados. Não era só um ataque à França, mas foi um ataque ao mundo todo, à liberdade de expressão. 

Então no dia seguinte, 08/01, em todas as salas de aulas as pessoas colocaram cartazes "Je suis Charlie", para mostrar como todos nós havíamos sido afetados pelo acontecido. Colocamos também uma frase creditada ao filósofo francês Voltaire: "Posso não estar de acordo com o que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo." É uma citação perfeita para ilustrar o evento. 
O que tornava ainda mais chocante, era o fato de Paris ser uma cidade tão importante e calma, não haviam acontecido ataques como esse.

Também em 08/01, houve um assassinato em Montrouge por um homem chamado Amédy Coulibaly. Montrouge é uma pequena cidade não muito longe de onde em vivo em "Hauts-de-Saine"(92), um departamento. E para informar, o 92 é o departamento mais rico depois de Paris, então, tornou tudo ainda mais chocante. Em 09/01, Coulibaly cometeu um outro assassinato em um mercado judeu chamado "Hyper Cacher" and nesse dia, os terroristas do Charlie Hebdo (os irmãos Saïd e Chérif Kouachi) e Amédy Coulibaly foram mortos pelo GING e pela RAID. Foi um alívio para o povo francês. Uma semana depois, os jornalistas e desenhistas sobreviventes do Charlie Hebdo fizeram uma nova edição da revista, mas com 8 páginas ao invés de 16: era como um símbolo, porque metade deles foram mortos, então a outra metade só fez meia revista. 

Em Paris e em toda a França as pessoas estavam com um pouco de medo por causa do acontecido. Havia alguns turistas em Paris, mas isso não significou muito. Mesmo o ataque tendo acontecido no primeiro dia das liquidações tradicionais, ninguém, ou quase ninguém saiu de casa. Havia polícia por toda a parte e em cada prédio comercial havia policiais com armas. Com o ataque, a França colocou algo chamado "alerte vigipirate, niveau attentats [um sistema nacional de alerta de segurança, criado em 1978 pelo Presidente Valéry Giscard d'Estaing]. Em algumas escolas as crianças não eram permitidas de ir às escolas, por causa do alerta.

Durante mais de uma semana, os jornalistas franceses só falavam disso. Se eu me lembro bem, 17 mortes ocorreram ao todo (Charlie Hebdo, Montrouge e Hyper Cacher). Meu pais disse que em três dias, #CharlieHebdo tornou-se a hashtag mais utilizada desde a criação do Twitter. Nas ruas, muitos pontos de ônibus colocaram pôsteres pretos com "Je Suis Charlie". Era muito bonito de ver. 

E então no dia 11/01 aconteceu a Marcha Republicana em diversas partes do mundo: em Paris, havia mais ou menos 1,5 milhão de pessoas, e mais de 3 milhões em toda a França. Eu sei que muitos outros países fizeram isso também, como a Bélgica, a Itália, os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha e muitos outros. Em Paris, para essa marcha, compareceram 50 presidentes de todo o mundo. O que representa mais ou menos 1/4 dos presidentes de todo o mundo. Foi incrível ver toda essa solidariedade. Meus pais e meu irmão estavam em Paris para essa passeata. Eu não pude ir por causa do trabalho, mas eles disseram que foi extraordinário ver tantas pessas lá com o mesmo objetivo. 

O Charlie Hebdo vendeu 7 milhões de cópias da nova edição e as pessoas estavam fazendo fila para comprar. E algumas horas depois, no eBay, havia pessoas vendendo a revista por mais de 100/500/1000 €!
-T.K., 17 anos.**

O crescimento da extrema direita francesa parece ocupar também a mente dos estudantes. Com vertentes diferentes, Alexis Pellier e Malo Bresson dissertaram sobre o tópico. O primeiro comentou sobre o fato dos Socialistas estarem no poder em seu país [representado por François Hollande], mas nos conta também que em sua cidade é o discurso progressista que impera. Quando perguntado se ele escutava o discurso conservador extremista ele diz que não frequentemente. O segundo, fez fortes críticas à repercussão mundial e especialmente à marcha.

'A maior parte das pessoas pensa que é um horror o ataque à liberdade de expressão em nosso país. Para os franceses, nós somos o país que representa isso, nós desenvolvemos todas essas liberdade três séculos atrás com nossa revolução e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, o que é um símbolo para nós. "Charlie Hebdo é uma publicação que perdeu seu humor 10 anos atrás e que era criticada basicamente porque não era certo atacar a população mulçumana na França (2 bilhões, eu acho) que estava chocada e se sentindo insultada. Mas o terrorismo foi um ato horrível para a maior parte dos franceses.

Mas outras partes da população acredita que o governo tem um projeto para fazer um "complô" para fazer um novo agrupamento da população. E isso é um grande problema, porque a líder nacionalista (e racista) Marine Le Pen detia 25% da população, já antes do ataque, o que dividia a população.
E uma parte dos franceses e praticamente todos os africanos que habitam aqui ficaram chocados com a forma como o mundo protestou a se manifestou por esses jornalistas. Mesmo sendo algo excepcional e belo, não chega nem perto dos problemas que os países africanos passam hoje em dia.
Um humorista que sempre faz polêmica disse "je suis Charlie Coulibaly", sendo Coulibaly o nome do extremista que atacou o mercado judeu no norte de Paris. E a justiça o reteu. Então é um bom ponto para os mulçumanos que dizem que estão em um "país com liberdade de expressão." Dizer que eles não aceitam uma caricatura de Maomé, assim como os franceses não aceitam piadas com Dieudonné***

Então depois da primeira semana, havia união por todas as partes. Mas agora, espalha-se uma enorme discussão, com opiniões muito divergentes.

E é isso. Da minha minha parte, eu estou chocado com tudo o que aconteceu e feliz em saber que o mundo reconhece nossos jornalistas. Mas eu não consigo entender como nós podemos protestar por isso e ao mesmo tempo fechar nossos olhos para os problemas africanos."
- M.B.

Infelizmente, os problemas africanos não acabam quando eles deixam seus países para imigrar para um país colonizador rico. Alexis nos contou que apesar de ele ter alguns amigos islâmicos em sua cidade, pequena e rica, a presença de imigrantes mulçumanos não é comum. Segundo ele, a situação é muito complicada nas regiões mais pobres ou em Marseille. ‘Alguns subúrbios são quase como guetos com pobreza, comunitarismo e drogas.’, relata o jovem de 17 anos que se encontra no último ano de estudos secundários. ‘Mas eu acho que o diálogo na França – entre as comunidades, a religião e os políticos – limitam os danos. A integração estrangeira daqui é muito melhor do que a dos Estados Unidos, por exemplo. ’

Ele diz que se arrepende de não ter participado da marcha, mesmo estando ocupado no dia. Na data ele pensou que não queria estar ligado a algo ‘hipócrita feito pelos líderes dos Estados’, Poroshenko não e o resto não são santos, criticou ele. Mas o movimento representou também a solidariedade e a unidade nacional e mundial. A parte política foi uma distorção da manifestação popular que clamava pela união de cultura e de crenças. Ele termina com uma frase que faz jus não somente a situação da cidade luz, mas também ao nosso cotidiano. ‘Precisamos ser autocríticos e aplicar uma nova política baseada na tolerância, no entendimento e na empatia. ’
Após um grande, que muitos garantem ser só um início de uma longa fase de conflitos, levando em consideração que Estado Islâmico, Boko-Haram e Al Qaeda e muitos outros grupos são manchetes diárias de jornais em todo o planeta, não podemos deixar de debater. Algo que tão grande e que envolve inúmeros fatores, todos os pontos de vista devem ser ouvidos, questionados e debatidos. Se nem os especialistas chegam a um acordo, não seremos nós, pequenos participantes da história mundial, que ditaremos o que é certo ou errado. Mas eu posso garantir que é extremamente interessante tentar descobrir. 

*curiosidade lusitana: praxe é a palavra portuguesa para trote universitário, que em Coimbra dura todo o primeiro ano. Medo.
** a Theana, além de compartilhar esse depoimento maravilhoso, dividiu conosco também as imagens que ilustram o post.
*** comediante francês, ator e ativista político.

Foto por Theana Korez

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