segunda-feira, 16 de março de 2015

Sobre manifestações, ofensas e o mundo virtual


Foto por Franklin Freitas

Quinze de março. Dia histórico, não? Daria um bom nome de rua. Tanto aconteceu nesse data. Nasciam Eduard Strauss, Júlio Prestes, Gilberto Freyre, Içami Tiba, Oswaldo Montenegro, Eva Longoria. O Maine se tornava o 23° estado norte-americano, a Tchecoslováquia era invadida pelos nazistas, o musical My Fair Lady e o filme o Poderoso Chefão estreavam. Morriam Júlio César, Aristoteles Onassis e Tim Maia. Fatos marcantes para todos os gostos, acredito eu. Caso você não tenha sido contemplado, pode dar uma olhadinha na Wikipédia, tenho certeza que encontrará algo que lhe agrade. Só não sei se as manifestações de 2015 caso entrassem na lista iriam. Afinal, acho que não vejo tanto alvoroço cibernético desde a Copa do Mundo (polêmica do vestido posta à parte devido a relevância). É coxinha para lá, petralha para cá. Golpista e comunista. Reaça e burro. As ofensas são inúmeras, assim como os comentários ardilosos, que fazem parecer que o objetivo final de partido X ou Y entrar ou sair do poder, é poder vencer a discussão contra aquele seu vizinho, parente, amigo ou desconhecido com quem arrumou briga na página da Folha de São Paulo no Facebook.

Quando iniciou-se a divulgação dos protestos que hoje aconteceram, eu achei uma proposta interessante. Parecia que finalmente nós sairíamos de casa, largaríamos o teclado, levantaríamos da cadeira (confesso que poltrona rosa, no meu caso), e partiríamos às ruas em busca de um país melhor, como cidadãos e não como representante de um partido ou estrato social. Mas é claro que não foi isso o que aconteceu. Ao contrário, tornou-se um movimento contra a corrupção cujo alvo era um partido político e em especial, a nossa presidente. A minha, a sua, a de qualquer brasileiro. Você pode até dizer que ela não te representa, mas nós sabemos a verdade. É ela quem vai a congressos, encontros, jantares e conferências carregando o peso de ser a chefe de estado da República Federativa do Brasil. Foi ela a eleita pela maior parte da população de forma democrática, até que se prove o contrário. Se eu votei nela? Não. Se eu concordo com todas a medidas tomadas por ela? Não. Se eu acredito na real eficácia dos programas sociais criados pelo seu partido? Também não.  Se eu acho que possuímos razões legítimas para tirá-la do governo? Muito menos. E é por isso que eu não fui às ruas nesse domingo, por mais que o clamor de um possível fato histórico tentasse me seduzir.

Não podemos negar. O que vimos em centenas de cartazes, faixas e camisetas foram pedidos de impeachment, que podem parecer inofensivos se comparados aos pedidos absurdos de intervenção militar escritos em péssimo inglês, mas que refletem de forma deprimente no nosso comportamento tanto político, quanto do cotidiano. É tão fácil escolher alguém para jogar a culpa. Um bode expiatório, para extravasar as emoções quando necessário e evitar enfrentar o problema em si. 'Fora, Dilma!', é fácil. Difícil é citar todos os outros nomes que contribuíram para a situação moral do país. Será que estaríamos gritando 'Fora, Cabral!'? Não é jogar um livro de história em alguém, até porque acredito que eles são preciosos demais para serem jogados. Nem é dar aula de história para alguém, pois eu não tenho conhecimentos para tal, apesar de muito já ter desejado seguir essa direção. É apenas parar para refletir, em um momento em que os nervos estão à flor da pele.

Ficar em casa só porque não quer ser chamado de esnobe, é falta de autoconfiança. Ir às ruas só para dizer que foi, é como ir a uma ópera, sem compreendê-la. Você pode até ser levado pela emoção do momento, mas deixará de absorver tudo aquilo que o espetáculo pode proporcionar. Ficar em casa porque é a favor da igualdade social, e não da 'elite branca', mas também não fazer nada que possa ajudar o país nos outros dias do ano, é comodidade. Ir às ruas só para ser fotografado lá, é postar a imagem de um livro que não leu e nem pretende, só para mostrar ao mundo que você também tem conteúdo. Ficar em casa reclamando do capitalismo, usufruindo indiscriminadamente de todas as suas regalias, é hipocrisia. Ir às ruas sem saber ao certo o que o movimentos pede, é como tomar uma água sem saber da sua procedência. Pode ser limpa, pura, em condições de ser bebida. Ou pode ser imprópria para consumo, mas você só vai ter certeza disso quando tiver que lidar, ou não, com uma possível intoxicação. Ir ou não ir às ruas é um direito totalmente seu. Mas lembre-se que o que vem depois, é nosso.

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