quinta-feira, 5 de março de 2015

Sobre presidentes, amantes e Scandal


Ela não está bêbada. Uma dama nunca está.

Rumores. Intrigas. Fofocas. Oposição. Com exceção ao último termo, as palavras certamente poderiam ser inseridas no contexto de um drama adolescente para a televisão. Afinal, as versões maximizadas da vida de um estudante do ensino médio mostram protagonistas dos quais algumas características não são esperadas: maturidade é uma delas. À falta desta é creditada o comportamento expansivo e irresponsável de certos jovens, sendo que esses possuem, dentro de seus círculos sociais, meios de comunicação e integração com direcionamentos ético um tanto quanto duvidosos. Entretanto, apesar da idade ser um avanço inevitável caso ainda se respire, alguns velhos hábitos não são deixados para trás. Eles apenas ganham novas formas e consequências mais agressivas e, no caso de Scandal, meios de comunicação oficiais.

Também produzido por Shonda Rhimes, idealizadora da série médica Grey's Anatomy, o programa norte americano baseia-se no trabalho do escritório de gerenciamento de crises e comunicação, Olivia Pope and Associates. Lá, os 'gladiadores de terno', lidam com diversos clientes, especialmente políticos, que vão de senadores ao próprio presidente dos Estados Unidos. E ele, Fitzgerald Grant III, é o melhor exemplo de como a vida pessoal e profissional dos gladiadores se misturam inescrupulosamente. Mantendo uma relação extraconjugal com sua ex diretora de comunicação, Olivia Pope, ele diversas vezes compromete seu trabalho como 'líder do mundo livre' em meio a um emaranhado de especulações.

Mais do que um seriado sobre relações públicas de alto nível, Scandal tenta promover a imagem de uma mulher forte, elegante, determinada e extremamente comprometida com o que faz. Esse seria o espectro representativo idealizado da protagonista. Quando Olivia comete uma falha, essa sempre tem uma justificativa: sua paixão por Fitz, mesmo quando se trata de uma falha de caráter. Pode-se argumentar que a trama foi inserida em um contexto verossímil, onde a corrupção é tema frequente nos telejornais e onde a busca pelo poder pode ser literalmente mortal. Seria um comentário plausível. Mas em uma realidade guiada por mínimos princípios éticos, fraudar as eleições presidenciais não seria uma prova de amor, e sim um crime.

Em contrapartida, em meio (literalmente) a um tedioso relacionamento extraconjugal com cenas quase que patéticas, o qual poderia fazer parte de uma obra do Romantismo, surge a traída, a fria, a manipuladora, a irreverente esposa. A formidável Mellie Grant. Sulista como Scarlett O'Hara e talvez mais elitista que tal, a primeira-dama graduou-se em primeiro lugar em sua turma da faculdade de direito. A universidade? Harvard ou Yale, não me recordo bem. Segundo a própria personagem, uma das desvantagens de ocupar o posto que ela ocupava sendo tão estudada, era que acabava se tornando tedioso. O seu cabelo impecalvelmente volumoso, as pérolas e os tailleurs podem tentar enganar, mas escolher porcelanas e abraçar crianças não é para ela, comandar uma guerra sim. Ela é um 'animal político'. É impassível com quem se mete em seu caminho e está disposta a ignorar os affaires de seu marido, se for para conseguir o que quer. Frequentemente comparada a Jacqueline Kennedy com um toque diabólico, tem como concorrente não uma promíscua atriz de cinema dos anos 50 idolatrada pelo mundo, mas uma mulher bem sucedida, cuja crise familiar vai muito além de algumas brigas. Ao contrário de Jackie O, que sabia ao entrar em uma sala que seu JFK já havia dormido com pelo menos metade das mulheres ali, ela lida diariamente com a presença do amor da vida de seu seu marido. Só que essa não é a questão, qualquer um com uma boa dose de frieza poderia fazê-lo. Colocar uma personagem feminina com ambições e prioridades que poderiam ser descritas como masculinas é. Sem maternidade, sem escrúpulos que interfiram. Pois corruptível ou não, desvirtuada ou não, ela mantém seus ideias, mesmo que deturpados até o final. E com muita elegância, podemos dizer.

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