domingo, 19 de abril de 2015

Capítulo 4, Quatro Meses ou Sobre as Relações Entre Brasil e Coimbra

Faltam quatro meses. Eu novamente inicio um post contando os incontáveis dias para a minha ida à Coimbra. Cento e vinte e dois dias para aquela cidade que ao menos daqui parece maravilhosa. Com influências romana, árabe e visigótica, a cidade foi oficialmente fundada em 871, quando se tornou o Condado de Coimbra. Foi sede da primeira capital de Portugal, tendo perdido o título para Lisboa somente em 1255.

Já a universidade fez o caminho contrário: criada como 'Estudo Geral Português' por D. Dinis em 1290, transferiu-se definitivamente para Coimbra em 1537, onde hospedou-se no antigo Palácio Real, hoje Paço das Escolas.  A ordem foi dada por D. João III, o mesmo monarca que instaurou o sistema administrativo das Capitanias Hereditárias no Brasil. E como era de se esperar, essa não foi a única vez que a história desse centro urbano e de nosso país se cruzaram.

Nos tempos do Brasil Colônia e Império, com as opções de estudo em nível superior reduzidas, muitos dos que tinham a oportunidade de realizá-lo, buscavam universidades estrangeiras. E a UC era um dos principais destinos. Segundo Joaquim Ramos de Carvalho, estima-se que 78% dos ministros brasileiros entre 1822 e 1940 tenham lá estudado. O vice-reitor Joaquim Ramos de Carvalho, também apontou ao site Terra sobre a importância da instituição para a manutenção da totalidade territorial do Brasil. Afinal,  o local era ponto de encontro entre membros da elite brasileira, que talvez não se conhecessem caso houvesse mais de uma universidade em seu país natal. Constituía-se uma homogeneidade na relações de poder e até mesmo na doutrinação educacional. O mesmo já não aconteceu na América Espanhola, onde a quantidade de centros de ensino superiores criadas é hoje semelhante ao número de Estados independentes.

Um dos célebres aluno foi Tomás Antônio Gonzaga, talvez mais conhecido pelo seu pseudônimo Dirceu, o de Marília. Comparada com Os Lusíadas, de Camões (que possivelmente também tenha estudado em Coimbra) por Manuel Bandeira, é também a ele creditado Cartas Chilenas. Além de poeta arcádico foi também um influente jurista luso-brasileiro. Envolvido na Inconfidência Mineira, baseada nos preceitos iluministas, foi condenado ao exílio em Moçambique por intervenção pessoal de Maria I (a louca). Lá casou-se, teve dois filhos e veio a falecer em meio a um considerável prestígio.

Outro estudante, apesar de sua formidável trajetória, morreu pobre. Mas sua biblioteca contava com seis mil livros. Nascido em Santos, encaminhou-se à Portugal, onde graduou-se por Coimbra em Estudos Jurídicos, Matemática e Filosofia Natural, uma precursora das Ciências Naturais. Partiu em uma excursão científica pela Europa, onde conheceu importantes cientistas, como Lavoisier. Passou pela França, presenciando o início da Revolução. Aprendeu sobre mineralogia na Alemanha e na Itália. Desenvolveu ainda trabalhos na Suécia e na Noruega. Visitou também a Dinamarca, a Bélgica, a Holanda, a Hungria, a Inglaterra e a Escócia. E esses dez anos de viagem custeados pelo governo português, certamente contribuíram para mais um de seus dons: escrevia e falava em seis línguas e lia em onze. Ocupou em Coimbra a cátedra de Metalurgia criada especialmente para ele. Retornou ao Brasil em 1819, onde participou diretamente no Processo de Independência.

Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá; / As aves, que aqui gorjeiam, / Não gorjeiam como lá. O poema mais parodiado da literatura brasileira também foi escrito por um 'coimbrense': Gonçalves Dias. O bacharel em Direito não foi o único literato brasileiro a ter essa formação. Gregório de Matos Guerra, nascido 187 anos antes, chocou a sociedade da época ora amorosa, ora satírica, ora lírica, ora erótica-irônica. Com a sua irreverência, ganhou a alcunha de Boca do Inferno e o posto de maior poeta barroco do Brasil. 

Pergunto-me agora até que ponto uma universidade pode nos influenciar. Afinal, um pouco da genialidade de Gregório cairia bem, não?

 A uma freira que satirizando a delgada
fisionomia do poeta lhe chamou "Pica-Flor"

Se Pica-Flor me chamais,
Pica-Flor aceito ser,
Mas resta agora saber,
Se no nome que me dais,
Meteis a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
Que fico então Pica-Flor.

Gregório de Matos,
 justificando o epíteto de Boca do Inferno.

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