quarta-feira, 8 de abril de 2015

Precisamos nos comover com o atentado no Quênia


A clássica charge da prova sobre imperialismo.

Imagine um dia comum em uma universidade qualquer. Alunos andando pelo campus em busca de conhecimento e quem sabe de um futuro melhor. De repente, tiros. São 148 mortos.

Se a universidade citada se localizasse nos Estados Unidos, na Europa ou em qualquer país com um elevado índice de turismo, teria se tornado tema de notícias durante dias e dias. Mas não foi. Afinal, se tratava de um centro de ensino africano. No Quênia. Você saberia apontar no mapa a localização desse país? Pois é, acredito que a reposta seja quase unânime. 

Fazendo fronteira com o Sudão do Sul, a Etiópia, a Somália, a Tanzânia e o Uganda, a República Queniana possui uma história que conhecemos de forma genérica. Oficialmente designado a pertencer ao Império Britânico depois da Conferência de Berlim, em 1885. Os europeus monopolizaram as melhores terras para cultivo e também levaram para a região milhares de indianos para realizarem atividades que os nativos se mostravam resistentes a fazer. A independência só veio em 1963, após uma longa guerra. 

E foram cidadãos dessa ex-colônia inglesa as vítimas do atentado terrorista do último dia 02 de abril. Até agora, sabe-se que 142 estudantes da Universidade de Garissa foram assassinados, além de três seguranças do local e três militares. Na mesma época, o mundo lamentava a queda do avião da Germanwings, nos Alpes Franceses. O número de vidas perdidas foi similar, mas a quantidade de notícias não. 

Podemos tentar justificar o fato acima dizendo que é uma situação distante da nossa realidade, e que qualquer um poderia estar a bordo de um avião cujo co-piloto sofria de distúrbios mentais. Utilizo o termo politicamente correto 'distúrbios mentais' pois ainda não temos certeza do que aconteceu. Talvez daqui alguns dias eu possa substituir a expressão por 'falta de humanidade' ou 'tendência a cometer assassinato coletivo'. Mas seria muito inocente  de nossa parte acreditar que somente a probabilidade de estarmos nas mesmas circunstâncias responderia à questão. Afinal, nem todos somos cartunistas franceses que decidiram criticar a religião alheia.  E mesmo assim a repercussão acerca do Charlie Hebdo foi infinitamente maior. Eu mesma fiz duas postagens sobre o assunto aqui para o blog (você pode ler elas aqui e aqui).

Acusemos então a mídia tradicional, que não veiculou os fatos como deveria. Apesar de isso também ter sucedido, atualmente o acesso à informação ocorre de maneira muito mais versátil. Com a internet e especialmente com as redes sociais, compartilha-se informações banais, que inesperadamente muitas vezes ganham um enorme alcance. Seria então a morte desses seres humanos, diferentes de nós apenas geograficamente, menos importante do que um vestido que 'muda de cor'?

Nós podemos não ser responsabilizados pelo processo de colonização africana, mas ao ignorar a situação atual do continente, estaremos ajudando a perpetuar o descaso com o seu povo. E por isso nós poderemos sim nos considerar culpados. 


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