segunda-feira, 4 de maio de 2015

Como você aprende? ou um desabafo sobre o nosso sistema educacional.

Ao fundo, Stitch diz ''olá'. 

Realizar um teste e não se enquadrar em uma das respostas pode ser uma experiência um pouco frustrante, mesmo em uma época em que o 'ser diferente' é cultuado. Não sabemos ao certo se realmente não pertencemos a uma daquelas opções ou se simplesmente não possuímos um auto-conhecimento suficiente para projetarmos a nossa personalidade em uma das categorias viáveis. Sempre que eu via aquela perguntinha 'como você aprende?', eu me sentia assim.

Ler, escrever, ouvir, fazer: atividades que, isoladamente, parecem dominar as formas de aprendizado. Você precisa anotar enquanto assiste às aulas? Não te distrai? Você aprende mais na escola ou estudando sozinho? Gosta de fazer exercícios ou prefere só ler? Só ler? Mas não dá para aprender matemática só lendo! Pois é, deve ser por isso que eu nunca me dei bem com essa matéria. Gostos pessoais à parte, acredito que limitar os métodos de absorção do conhecimento seja justamente o que interfere para uma retenção a longo prazo de um determinado conteúdo. Afinal, precisamos urgentemente discernir a capacidade intelectual do aluno da habilidade em decorar um conteúdo.

Lembre-se da sua época de escola (infelizmente, não preciso esforçar-me muito para recordar-me da minha). Quais eram os atributos que a maior parte de seus professores mais valorizavam em um aluno? Notas, resultados em vestibulares? Se a resposta para o questionamento anterior for negativa, considere-se com muita sorte. Eu posso afirmar que tive essa sorte com alguns professores de certas matérias. E coincidentemente ou não,  são aquelas com as quais eu mais tenho afinidade. E eu agora pergunto-me, até que ponto o método de ensino utilizado pode influenciar no desempenho e na motivação de um estudante?

Sou feliz em dizer que tive ótimos professoras durante o Ensino Fundamental I. Professoras as quais eu guardo lembranças com muito carinho, admiração e respeito por terem me ensinado muito mais que o conteúdo programado para as fases iniciais. Obviamente, alguns problemas já surgiam nessa época, como reclamações acerca da minha participação nas aulas de Educação Física e da minha caligrafia. Nenhuma das duas melhorou até o final da escola. Nem irão, provavelmente.

Problemas mais graves chegaram na quinta série, quando mudei de escola e não me adaptei. Não era o excesso de disciplina o que perturbava e já o método de ensino. Não cheguei nem a pegar o boletim do último bimestre e já havia parado de frequentar as aulas. Retornando ao meu antigo colégio, o Ensino Fundamental concluiu-se sem maiores problemas. Obviamente não precisamos entrar em detalhes do início do meu pequeno trauma (espero que já superado) com exatas, envolvendo uma turma descontrolada, um professor e um armário da biblioteca no chão.

Os aborrecimentos chegaram mesmo no primeiro ano do Ensino Médio. Era 2012, também conhecido como o pior ano da minha vida. Expectativas demais, frustrações com as quais tive dificuldade em lidar e conteúdos com os quais não me identifiquei, resultaram em estresse e na minha primeira recuperação. No segundo ano, o clima não melhorou muito, mas a minha viagem de quinze anos e as aulas de história, geografia, filosofia e sociologia fizeram o ano passar com uma estranha rapidez. 

Até que em 2014, o tão esperado Terceirão chegou. E hoje, quase seis meses após o seu fim, não tenho conclusões precisas sobre ele. Fiz uma promessa pessoal de me dedicar aos estudos como nunca antes, mas certamente não posso dizer que o objetivo foi cumprido. Comprei ao início do ano dois cadernos maravilhosos para anotar tudo em todas as aulas. As anotações duraram duas semanas. As canetas de ponta fina e os post-its que deveriam colorir todas as páginas na apostila se concentram na parte de história. E as minhas notas nos simulados nunca me colocaram nos primeiros lugares daquele ranking geral que todos esperavam ansiosamente para que fosse fixado nas paredes da salas. Todos menos eu, é claro.

Entretanto, aqui estou eu, aprovada em todos os vestibulares que realizei, e a caminho de uma das mais antigas universidades europeias. O que pode justificar isso? Sorte? A escolha de um curso pouco concorrido? Essas seriam respostas plausíveis se eu só acreditasse no método de educação tradicional, mas felizmente isso não acontece. 

Durante todos esses anos quase que desespero dentro de salas de aula, eu fiz o melhor que pude para tirar o máximo de fora delas. Estudei línguas e concluí meu plano de me formar poliglota. Durante esses cursos, conheci professores e colegas formidáveis que compartilharam experiências e conhecimentos de forma espontânea e que dificilmente eu irei esquecer. Li livros que se tornaram meus favoritos e que muito me ensinaram, além de alguns outros que não são clássicos da literatura, mas que sempre tem algo a agregar. Assisti a filmes (foram 170 nos últimos dois anos) e séries (nem queira sabe quantas temporadas foram) que podem não ser providos de erudição, mas que nos inspiram a todo momento (mesmo que essa inspiração esteja relacionada a uma carreira que nunca cogitei seguir). Fiz um curso de fotografia, comecei a aprender a desenhar. Tive contos publicados em um livro que me trouxeram muito orgulho e que deixaram abertamente registrados a minha escrita e como ela tem evoluído.  O que me leva ao blog, que mesmo só com sessenta postagens passou a me incentivar a pesquisar mais e a escrever mais. E tudo isso nos últimos três anos. 

E mesmo parecendo estar implícito em meu discurso que a escola não teve um papel importante em tudo o que foi citado anteriormente, esta não é a realidade. De onde você acha que eu emprestei todos os livros que li? Onde eu tive os conhecimentos inciais sobre globalização, o papel da mulher na sociedade e o dualismo do barroco? Justamente na escola, instituição essa que mais tarde, não valoriza aquilo para o qual ela deu asas. Fora da teoria, da propaganda que prega 'educação para a vida' e que busca novos alunos, você é só mais um nome que poderá constar na lista de aprovados de uma universidade federal. E se você ousa discordar, contrariar e discutir você não é mais um aluno digno de destaque. É só mais um problema que vai embora ao fim do ano letivo, aleluia. Mas do que estou eu reclamando, ao menos uma educação de qualidade me foi dada. E todos aqueles a quem essa oportunidade não foi dada? Como esperar um modelo educacional semelhante aos nórdicos se nem ao básico todos tem acesso aqui? E o que esperar da educação de um país que ao invés de apoiar seus professores, joga bombas e atira com balas de borracha neles? Ponderando sobre isso é que podemos ver, com muito pesar, o motivo de notas ainda serem o principal método de avaliação mesmo nas melhores escolas do país. E ainda mais triste que isso, é a constatação de um prognóstico nada positivo. Mas tudo bem, assim como militar, povo estudado é povo insubordinado, não é governador?

E quanto ao teste que mencionado no início do texto, ele foi só um ponta pé inicial para esse mar de palavras escritas em uma madrugada. Caso você tenha ficado curioso com a forma como eu aprendo (o que eu acho difícil), a resposta é bem simples: eu aprendo por associação. Pode ser lendo ou escutando, tudo o que eu preciso é associar o novo conteúdo com um já existente. É simples e eficaz, como deveria tudo na vida ser, veja um exemplo. 

Eu estudarei em Coimbra, universidade a qual Tomás Antônio Gonzaga poeta do arcadismo também frequentou. Tomás é patrono de uma cadeira da Academia Brasileira de Letras, cuja sede é uma réplica do Petit Trianon, em Versalhes. Essa residência foi construída para Maria Antonieta como comemoração do nascimento de um herdeiro. Maria Antonieta era uma Habsburgo assim como D. Leopoldina, esposa no nosso imperador D. Pedro I, filho de D. João VI. Já D. João III, foi quem esteve envolvido na crianção das Capitanias Hereditárias, além de ter transferido a Universidade de Coimbra definitivamente para Coimbra. E foi lá, que Tomás Antônio Gonzaga, poeta, estudou.

E você, como estuda? Alguma experiência interessante (ou traumática) em sua passagem pela escola? Sinta-se a vontade para escrever e desabafar, ajuda a passar a raiva. Eu que o diga.

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