domingo, 31 de maio de 2015

Sobre brinquedos infantis e brigas conjugais.

Sim, os dois brinquedos são meus. Poderia dizer que ambos são antigos,
mas o meu Buzz Lightyear não tem nem um ano.
Ao infinito... E além!
Escrevo esse texto enquanto uma grande parte das pessoas vivendo sob o mesmo fuso horário dormem. Algumas pessoas podem estar na rua, comemorando com os amigos, ou em casa, com insônia ou trabalhando até tarde. Eu não estou dormindo graças à discussão dos meus vizinhos. Aqui no prédio sempre tem um barulho novo: cachorro latindo, máquina lavando roupa, solteiro festando e casal brigando. Uma maravilha. Pode até ser curioso nos primeiros minutos, paramos para prestar atenção. Só que depois de duas horas, se torna insuportável. Tudo bem, você não precisa dela, mas eu preciso dormir, mal educado. Pare de jogar coisas no chão e só vá embora logo.

Estou prestes a fechar os olhos, quando escuto, depois de muitos absurdos como 'saia da minha cama' e palavras de baixo calão, a seguinte frase: 'limpa a minha casa e depois vá embora!'. Quem recebe toda essa amorosidade do relacionamento é uma mulher, que ao contrário de muitas outras na mesma conjuntura, não se encontra em um estado de vulnerabilidade social. É instruída, cursa um mestrado. Possui uma vida que pode-se julgar confortável. Mas que mesmo sofrendo agressões físicas e verbais do marido constantemente , ainda é vista aos beijos com o mesmo a caminho do supermercado. Soa ridículo, não? Posso até julgar a situação de modo mais duro, devido à falta de credibilidade que um casamento tem para mim. Acredito veemente que em alguns casos (infelizmente não poucos), essa instituição tão valorizada na sociedade tradicional não passa de uma forma de prostituição legalizada, onde se troca sexo, condição de cônjuge troféu e uma pseudo família por dinheiro, status ou aquele prazer retrógrado de colocar 'casado(a)' como estado civil.

Polêmicas à parte, o acontecimento da noite logo foi por mim associado a uma situação ocorrida durante o dia. Em uma busca por presentes para o aniversário da minha prima, que completava seis anos, pude perceber o incrível sexismo das lojas de brinquedos. Já havia acompanhado essa polêmica, que nos Estados Unidos levou à extinção das categorias 'para meninos' e 'para meninas' da Amazon, além da criação do fabuloso GoldieBlox, o brinquedo para futuras engenheiras. Apesar de possuir fortes ideais feministas, eu ainda questionava o quão grave esse tópico realmente era. Afinal, eu brincava de Barbie quando criança, mas sinceramente nunca quis ser como ela. Amava as princesas da Disney, mas isso só me levou a gostar ainda mais de história. Tinha uma cozinha de brinquedo que só me influenciou a ter essa prática como hobby. Só que ao entrar na loja e me deparar com uma máquina de lavar roupas de brinquedo cor de rosa, o sentimento de indignação tomou conta. Além do motivo de alguém presentear uma criança com um objeto feito para uma atividade que acredito que 95% dos adultos não gostam de realizar, indaguei-me sobre a razão daquele aparelho doméstico ser rosa. Nada contra a cor, é minha favorita. Só que ela normalmente associada a objetos femininos, e que eu saiba, lavar roupa não é uma atividade exclusiva desse sexo.

Volto então para a cena da esposa sendo agredida. Se ela tivesse sido presenteada com arminhas de brinquedo, tivesse sido colocada na aula de judô ao invés do balé e tivesse sido ensinada a bater também caso apanhasse na escola, a situação seria diferente? Colocaria ela fim nos acontecidos, se defenderia, tomaria alguma providência? E se aquele ridículo homem, de educação e índole defasadas, tivesse sido educado para fazer as suas atividades domésticas, ele deixaria de ordenar que a esposa limpasse a casa dele antes de partir?

Posso não ter chego a nenhuma conclusão, afinal não me baseei em uma pesquisa, nem me dediquei ao assunto profundamente. Mas só para garantir, saí da loja de brinquedos com um kit de massinha 'Dr. Opera Tudo', com o qual as crianças podem construir os órgãos internos de um boneco para depois operá-los. Afinal, antes um brinquedo meio estranho, que um completamente sexista.

Enquanto terminava os post, tive o desprazer de ler 
os comentários de uma postagem do jornal O Globo sobre 
desigualdade de gênero. Vergonhoso.

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